Pele ressecada no inverno: por que acontece e o que fazer

Por Dr. Marcelo Oliveira Nunes | Atendimento em Dermatologia em Moema e Vila Mariana, São Paulo
O inverno não é apenas a estação dos casacos e das bebidas quentes. Para a pele, é também uma época de maior vulnerabilidade. A combinação entre temperatura baixa, ar seco e mudanças de hábito que o frio naturalmente provoca cria condições desfavoráveis para a manutenção da hidratação cutânea, afetando tanto o rosto quanto o corpo.
Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), o clima do inverno gera queda de temperatura e ar seco, que trazem mudanças à pele, geralmente na forma de ressecamento, irritação e até acne. Isso se acentua também por causa das mudanças de hábitos durante a estação, como alterações na alimentação, uso de roupas mais fechadas e banhos muito quentes.
"Tanto a pele do rosto quanto a do corpo são afetadas pelo clima frio e seco, apresentando um aspecto esbranquiçado, com aglomerados de corneócitos, irritação cutânea, hipersensibilidade e aumento da secreção sebácea." — Profa. Me. Laila Michalski, Farmacêutica especialista em Farmácia Estética (PROUC/UFF)
O que acontece com a pele durante o frio
A pele possui uma camada de proteção natural chamada manto hidrolipídico, formada pelas células da epiderme e derme, pela secreção de sebo e suor. Essa camada funciona como um escudo, protegendo a pele contra fungos, bactérias, agentes químicos e físicos e fatores ambientais.
No inverno, esse manto protetor é colocado à prova. O ar frio e seco acelera a perda de água pela superfície cutânea, e os hábitos típicos da estação, como banhos quentes e prolongados, o uso de buchas e sabonetes agressivos, contribuem para romper essa barreira de proteção. A SBD observa que evitar o uso de buchas é especialmente importante, pois elas esfoliam a pele, retiram a proteção natural ou o manto hidrolipídico superficial, danificando a barreira cutânea.
Sinais de que sua pele está pedindo cuidado
O ressecamento raramente aparece de forma abrupta. Em geral, a pele envia sinais progressivos que, quando ignorados, podem evoluir para quadros mais incômodos ou agravar condições preexistentes. Os sinais mais comuns no inverno são: • Sensação de "pele apertada", especialmente após o banho • Aspecto esbranquiçado da pele, sinal de acúmulo de corneócitos ressecados • Descamação fina nos membros, rosto e lábios • Coceira persistente (prurido), mesmo sem lesões visíveis • Vermelhidão e hipersensibilidade cutânea • Rachaduras nos lábios, que são muito sensíveis ao frio
Os lábios merecem atenção especial. Por não possuírem glândulas sebáceas, são particularmente vulneráveis ao ressecamento e às fissuras durante o inverno. A SBD recomenda o uso de hidratantes labiais específicos, aplicados várias vezes ao dia, podendo incluir proteção solar (FPS) e substâncias eficientes na hidratação, como manteiga de cacau.
Condições dermatológicas que se agravam no inverno
Para além do ressecamento comum, o clima frio pode intensificar condições dermatológicas já existentes. Pacientes que possuem dermatoses inflamatórias como psoríase, dermatite atópica, eczema e rosácea precisam ser ainda mais cautelosos nesta época do ano, pois o clima mais frio é um fator que pode levar à piora dessas doenças, segundo a SBD.
Dermatite seborreica
Ocorre principalmente nas regiões com pelos, como face e couro cabeludo. É uma descamação da pele causada pela desregulação sebácea. As manifestações mais frequentes são intensa produção de oleosidade, descamação e prurido.
Dermatite atópica
Quem sofre de atopia pode apresentar também asma ou rinite alérgica. O principal sintoma é a coceira, que pode começar antes mesmo de qualquer lesão aparecer na pele.
Psoríase e ictiose vulgar
A ictiose vulgar aparece após o nascimento e pode apresentar desde ressecamento e descamação fina até descamação intensa de aspecto geométrico. As áreas mais atingidas são os membros, podendo afetar também a face e o couro cabeludo.
Os hábitos que agravam o problema
Antes de falar sobre o que fazer, vale entender o que não fazer. Alguns comportamentos muito comuns no inverno contribuem diretamente para o agravamento do ressecamento cutâneo: • Banhos quentes e muito demorados, que comprometem o manto hidrolipídico • Uso de buchas e esfoliantes que danificam a barreira cutânea • Sabonetes em barra abrasivos e ressecantes • Diminuir a ingestão de água — um erro muito comum no frio • Abandonar o protetor solar por achar que o inverno dispensa a fotoproteção • Esquecer de aplicar hidratante logo após o banho
Como cuidar da pele no inverno: protocolo baseado em evidências
As orientações a seguir são baseadas nas recomendações da Sociedade Brasileira de Dermatologia e do PROUC/UFF. Elas formam um protocolo de cuidados diários simples e eficaz para a estação.
1. Hidrate logo após o banho
O momento ideal para aplicar o hidratante é logo após sair do banho, ainda no banheiro, aproveitando a umidade residual da pele, que ajuda na penetração do creme. Essa janela de absorção potencializa a eficácia dos ativos hidratantes.
2. Escolha o produto certo para o seu tipo de pele
Peles normais a secas devem abusar de formulações em creme, loções cremosas e óleos vegetais. Peles mistas, oleosas e acneicas devem evitar hidratantes em creme no rosto e nas regiões do corpo mais oleosas, optando por gel ou gel-creme (formulações oil free). Entre os ativos hidratantes indicados pelo PROUC/UFF estão ceramidas, ácido hialurônico, pantenol (vitamina B5), ureia, glicerina, PCA-Na, vitamina E, vitamina C, vitamina B3 e fitoesteróis. Bons hidratantes também são aqueles ricos em óleos vegetais com ômega 3, 6 e 9, como óleo de girassol, amêndoas doces, semente de uva, framboesa e romã. O PROUC/UFF orienta evitar hidratantes à base de óleo animal e mineral, pois são comedogênicos e não possuem bom sensorial.
3. Prefira banhos mornos e breves
A temperatura e o tempo do banho fazem diferença real. A água muito quente dissolve os lipídios naturais da pele, comprometendo o manto hidrolipídico. Da mesma forma, sabonetes em barra comuns podem ser muito agressivos para a estação — prefira sabonetes glicerinados ou formulações ricas em substâncias hidratantes.
4. Mantenha o protetor solar todos os dias
Embora haja uma diminuição da incidência dos raios solares no inverno, o uso do filtro solar deve ser mantido diariamente, conforme orientação do PROUC/UFF. A SBD reforça esse ponto: adote o hábito do uso diário e contínuo do protetor solar, ao sair ao sol e em todas as áreas da pele não cobertas pela roupa. Os dias mais nublados e frios não eliminam a ação dos raios UV — eles apenas são mais filtrados pela atmosfera. Isso não deve ser entendido como razão para relaxar no uso dos filtros solares.
5. Hidrate-se por dentro
A SBD e o PROUC/UFF convergem neste ponto: manter a ingestão de água é extremamente importante para conservar a hidratação da pele e de todo o organismo. Um corpo hidratado apresenta uma pele mais macia e elástica. A recomendação é beber no mínimo dois litros de água por dia. Para quem tem dificuldade em consumir água no frio, uma alternativa é dividir a quantidade indicada entre água e chás claros ou de frutas. A alimentação também contribui: legumes, hortaliças, frutas, castanhas, nozes e amêndoas são fontes de vitaminas, minerais e antioxidantes que auxiliam na manutenção da saúde da pele.
O inverno como aliado dos tratamentos dermatológicos
Há um aspecto positivo e pouco comentado do inverno: é a estação mais indicada pelos profissionais de dermatologia para a realização de tratamentos que requerem maior cuidado com a exposição solar. Segundo a SBD, o inverno é a época mais indicada para tratar a pele, pois a exposição ao sol é reduzida, ficando mais fácil melhorar o aspecto geral da pele.
Procedimentos como peelings químicos e mecânicos, microagulhamento e outros que promovem renovação celular exigem um pós-procedimento com hidratação intensa e proteção solar rigorosa. Por isso, o frio, ao reduzir naturalmente a exposição ao sol, cria condições mais seguras para esses tratamentos, favorecendo a regeneração tecidual.
Resumindo: o que não pode faltar na sua rotina de inverno
• Beber no mínimo 2 litros de água por dia • Evitar banhos quentes e prolongados • Preferir sabonetes glicerinados ou com ativos hidratantes • Não usar buchas ou esfoliantes diariamente • Aplicar hidratante logo após o banho, ainda com a pele úmida • Escolher o hidratante adequado ao seu tipo de pele • Usar hidratante labial específico várias vezes ao dia • Manter o protetor solar diariamente, sem exceção • Manter uma alimentação rica em vitaminas, minerais e antioxidantes
O inverno oferece tanto desafios quanto oportunidades para a saúde da pele. Com uma rotina de cuidados adequada, é possível atravessar a estação com a pele hidratada, íntegra e preparada para os meses que virão.
Referências bibliográficas
Sociedade Brasileira de Dermatologia. Cuidados com a pele no inverno. Disponível em: sbd.org.br Sociedade Brasileira de Dermatologia. No inverno, redobre cuidados com a pele, cabelos e unhas. Disponível em: sbd.org.br Schiessl GW et al. Cuidados com a pele no inverno. PROUC/UFF — Programa Universitário de Cosméticos, Universidade Federal Fluminense, jul. 2021. Disponível em: prouc.uff.br
Este artigo tem caráter informativo e educativo, não substitui uma consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individualizada.